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14 de março de 2016 às 15:51

TDAH – Prazer e Recompensa (Entenda quem tem)
Escrevi este texto antes do casamento, antes de ser mãe e antes de muito amadurecimento em 20/agosto/2012. Quero compartilhar com vocês, pois muitos adolescentes passam pelo mesmo todos os dias!
Quantas vezes não sentei aqui para fazer o que estou fazendo agora e não me dei conta de continuar da maneira mais clara possível, a inteligência me fazia aplicar as emoções em personagens que criava dentro de mim. Dava vida a ele e acreditava em sua existência. Uma forma de mascarar as emoções sentidas por mim. É impressionante a forma de raciocínio rápido que temos para o que é do nosso interesse, parece ser falta de vergonha da nossa parte. Quando estou bem, saio da minha situação e olho todo o cenário como as pessoas que convivem comigo, percebo que é uma filtragem extremamente rápida que meu cérebro faz da informação e a elimina, isto acontece porque não tem nenhuma palavra chave que prenda a minha atenção no assunto. Posso descrever minha vida toda aqui, em todos os momentos vejo sequelas do meu TDAH. Na infância, a criança chata, precoce, agitada, com dificuldade para ficar em silencio em uma igreja, ou sentada na hora da refeição. A alto-exclusão era confusa aos olhos de todos, podia ser extremamente comunicativa, dominava qualquer assunto, apresentava minha opinião para qualquer pessoa, era de uma alto confiança que fazia os adultos se irritarem comigo, ninguém entendia de onde eu tinha tirado a informação, se o que eu estava falando era verdade, eles não entendiam a agilidade do meu cérebro em receber, entender, incrementar o raciocínio e transforma-lo em algo grandioso para falar, dessa forma a dificuldade em me entender com alguém da minha idade era enorme, ninguém entendia minha linguagem, ninguém sabia brincar do meu jeito, porque eu desenvolvia sequencias e regras, eu selecionava porque achava ninguém era bom o suficiente para andar comigo, eu não tinha paciência em esperar o tempo normal de uma pessoa receber a informação, eu não queria chamar a boneca de filhinha porque era ridículo conversar com algo que não tem vida, meus brinquedos eram miniaturas porque fazias as bonecas conversarem entre elas, eu era apenas um narrador da historia. Todos os meus gostos e valores eram diferentes, como se existisse duas Anas totalmente diferentes dentro de mim. A insistência insuportável para que todos concordassem com o que eu queria me fazia muitas vezes perder tudo, soava arrogante e grosseira, o TDAH sempre tem um argumento e é isto que esperamos das pessoas, eu não admito ter um “não”, quero que me explique, argumente. me faça entender porque de um não. Acontece que argumentar com um TDAH não é fácil, tudo que a pessoa fala vai ter resposta, eu sempre tenho a razão até que me provem o contrario. A cada não sem argumento que eu tinha de engolir parecia tirar um pedaço do meu corpo, então eu reagia àquela dor e angustia de perca com revolta, eu tinha fracassado, e era inadmissível isto, então eu precisava liberar minha força, me arranhava, me batia, me jogava ao encontro da parede, quebrava objetos que eu gostava para entenderem que a minha revolta era maior que o valor que eu dava a qualquer coisa. Eu não tinha controle da situação, era impulsivo, não media consequência dos meus atos. Todo este impulso gerava uma força que me fazia machucar, quem tentasse me controlar ou me segurar, muitas vezes minhas irmãs tentavam me ajudar, pois estava me machucando e eu acabava batendo nas duas de forma simultânea. O “não” é o maior problema para o TDAH, é o mesmo que dizer “você não é capaz”, “você não vai conseguir” ou “vai dar errado”. Cada vez que ouvimos um não é como um desafio e então ficamos mais resistentes ao que queremos, porque gostamos de adrenalina e é difícil controlar nossa excitação. Quando enfim conquistamos o “sim”, a ansiedade toma conta do nosso corpo, da nossa mente, parecia um nó em minha garganta, nenhuma data ou algo esperado era tranquila, podemos agir com agitação, perdendo noites de sono ou parava sem perceber, ficava pensando no dia que estava por vir ou do que eu estava a realizar e minha mente trabalhava tanto, que quando eu notava já tinha acabado a aula e eu não tinha copiado a matéria no caderno. Consequência disso? Eu me perdia, me desorganizava (característica muito natural de um TDAH – a desorganização), na mesma sequencia as emoções de insuficiência, me sentia incapaz, burra, lerda, envergonhada, não entendia como todos tinham copiado em tempo a matéria e eu ia passar pela humilhação de ficar no intervalo na sala copiando. O esquecimento também é frequente. É um telefone tocar, que toda a programação do dia se perde, invertemos datas, esquecemos realmente de compromissos importantes e de fazer o trabalho que é para ser entregue no próximo dia. Mas sempre conseguimos dar um jeito de ultima hora, usamos o bom relacionamento, persuasão, carisma e conseguimos que alguém empreste a matéria para ser copiada e entregue. Sempre usamos nosso vocabulário extenso para explicar, justificar, argumentar e conseguir o que queremos. Uma chance de melhorar no próximo semestre, ter mais tempo para se dedicar a aquela atividade que não estamos desenvolvendo de maneira completa. A dificuldade de conciliar as uma coisa e outra também gera resultados intermediários e é por isto que nos dedicamos a fazer aquilo que temos prazer ou facilidade em fazer, descobrimos ao despertar o interesse por matérias humanas ou exatas, por exemplo. É um ou o outro, se é para fazer tem que ser perfeito, não aceitamos ter alguém melhor naquilo que nos destacamos. A adolescência é conturbada. A vida toda ficamos perto de pessoas mais velhas, falando de assuntos mais estruturados, naturalmente as curiosidades e desejos despertam antes. Conhecemos alguém legal, beijamos esta pessoa e no outro dia falamos para o mundo que estamos namorando e que vamos casar. Junta a excitação, a ansiedade, alto confiança e então agimos por impulso. Assustando assim a pessoa que estamos com nossa velocidade e anciã de viver a emoção do momento. Pressionamos, enlouquecemos, choramos e encaramos as pessoas como conquistas. Depois que perdemos estas, por ser difícil de relacionar-se com alguém tão complicado como nós, em pouco tempo embalamos para um novo relacionamento, que em pouco tempo também perde o controle e acaba. Não temos paciência para esperar alguém aparecer, conhecer e as coisas acontecerem naturalmente. Nós fazemos acontecer, porque de fato não controlamos nossa excitação e parece que precisamos ter algo a se apegar, algo a dominar. Nunca estamos cansados, indispostos, nosso corpo tem muito a gastar, da mesma forma que nossa cabeça trabalha diferente, sendo mais criativa, mais esperta, mais informada, fazemos “mil coisas” no computador ao mesmo tempo, nossa mente não cansa, por isto a dificuldade em dormir. Fazer exercícios, como natação, musculação, esportes que usam nossa força e energia ajudam muito para que nosso corpo exija descanso. Aprendi controlar muitas emoções com o esporte. Desde o inicio do tratamento minha medica indicou a academia como complemento, quando me deparo com um “não”, respiro, coloco a roupa de academia e saio correr. Não paro enquanto aquilo não parou de me perturbar, corro horas se preciso. Descobri meu TDAH aos 16 anos, vinha fazendo o tratamento e lembrando de tomar os remédio com ajuda de meus pais. Pois seria impossível eu lembrar sozinha, recusei por muito tempo os medicamentos. Mentia que tinha tomado o comprimido quando esquecia para não admitir que eu não lembrei. Ter disciplina sem o remédio hoje eu percebo que é impossível, o TDAH é um profissional que se destaca dentro de empresas, sempre é reconhecido por ser o melhor em executar sua profissão. E sem o medicamento nada disso é possível, pois temos que tratar nossas comorbidades ou ninguém consegue se relacionar conosco e também nunca vamos dar continuidade em que conquistamos. Podemos ate adquirir que queremos sem o medicamento, não conseguimos dar manutenção ou continuidade a isto. Sim, o TDAH é genial, criativo produtivo, inovador, salvador… E nada disso substitui o desatento, impulsivo e desorganizado, vitima… Eu escolhi fazer o tratamento. Hoje, 20/08/2012 uso dois remédios: Concerta (que me faz ter mais atenção, ter foco e um dia normal organizado) e o Risperidon (que me deixa mais calma, assim posso dormir a quantidade que meu corpo precisa). Hoje eu descrevi um pouco sobre cada faze desde minha infância, para que as pessoas entendam o quanto o medicamento é importante. Não tenha vergonha de perguntar e se inteirar do assunto. Hoje eu me sinto segura para falar e explicar sobre o TDAH e espero que se sintam a vontade para falar sobre e questionar, caso eu não tenha a resposta na hora, procurarei fontes seguras e poderei responder.” -Ana Claudia Cruzatti